Quando ela se dispõe a olhar nos olhos, eu até me disponho a falar…

Terça-feira, sete e trinta e cinco da noite. Biblioteca quase vazia, os livros de secretariado continuam no mesmo lugar, praticamente intactos. Não venta muito, está bem escuro, o dia todo esteve cinza e chuvoso, mesmo assim não atrapalhou os protestos contra a empresa de transporte público da cidade.

Os livros de administração estavam lá, fáceis de encontrar, começo a folhar um e outro na tentativa de encontrar o assunto que será discutido na aula, olho com pressa, esses livros trazem sempre mais do mesmo e isso sempre me causa irritação.

Olho de baixo pra cima para um vulto que passa rapidamente pela entrada da biblioteca, sem compreender o que vejo, meu estômago dá um salto para trás, empurrando os pulmões, os rins e a bexiga. Isso causa um desconforto tamanho, vontade de vomitar, tremores dos dedos dos pés até as sobrancelhas me fazem ter vontade de mijar e de sair correndo. Mas respiro fundo, conto até três e volto a folhar os livros como se nada tivesse acontecido.

Penso em ir embora, deixar tudo lá e morrer em choro numa cama qualquer. Aos poucos meus sentidos vão voltando a si, fecho os livros e vou conversar com ele.

Olhando-o de longe, o computador tomando todas as atenções, com aquele olhar fixo e concentrado na tela quadrada, parece olhar para uma janela, parece não estar alí, seus pés parecem não tocar o chão, sua aparência é de quem anda se cuidando mais, camiseta bem alinhada, as velhas calças jeans de sempre e o mesmo tênis marrom que tem a aparência de deixar seus pés maiores do que eles realmente são.

Me aproximo trêmula, mas a aparência é de muralha, balbucio uma palavra. Ele levanta a cabeça, me fita, seus olhos se perdem nos meus, por alguns segundos o relógio para, a biblioteca se esvazia, as portas se trancam, os olhares, de mãos dadas tomam seus rumos no vasto desejo de sentir o sabor dos lábios apaixonados que há tempos não conseguem mais amar, nossos olhares nos traíram, se iludiram com aquela calmaria que sentíamos no passado. Aqueles segundos me seduziram na doce ilusão de que teríamos nossos olhares se cruzando no doce encanto do nosso amor novamente, doce engano.

Pergunto-lhe sobre as fotos do protesto. Ele anestesiado, mal consegue formar as palavras que encorporam sua resposta. Diz que não as têm.

Pergunto se gostou do protesto, ele responde que sim, que é disso que ele gosta.

Sem ter mais condições de prosseguir com essa tortura de te amar, me retiro por desespero, por constatar a triste sina de te amar tão profundamente que nem meus órgãos conseguem compreender. A dor desse olhar agora está cravada na minha alma, segue maltrando o ego que luta contra o desejo de te procurar, na busca insana por alguns segundos daquele olhar novamente.

No engano pensar de que tu sentistes o mesmo que eu, me arrisco a te escrever. Com a resposta ligeira de teus dedos frágeis, que nem sempre conseguem resistir aos meus devaneios e mandar uma mísera resposta, chegamos à mais uma madrugada de tragédia e o que era pra ser o recomeço daquilo que nem começou, se torna mais uma vez, uma lacuna no nosso poema que nunca terminou.

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Sobre indelevelsabina

Uma amante anônima.
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Uma resposta para Quando ela se dispõe a olhar nos olhos, eu até me disponho a falar…

  1. xpaulahx disse:

    Patrícia Poeta Linda
    :*

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