Pouso em Maringá

Meu deus como eu te amo.

Mesmo indo nas baladas gays, andando pela cidade, sentindo o cheiro da opressão.

Passo pisoteando os corpos magros, famintos, minguados,  nas calçadas, das ruas sob sol do oriente.

Andamos em meio à luta de classes essa noite, essa noite.

Conceitos, acadêmicos, eventos, sem efeito.

Hospedada em um bom hotel no centro da cidade, mármore. A TV está ligada. O cigarro acabou. Na tela a cena se passa nos Estados Unidos.

Eu sou índia.

Eu sou a índia que repousava com o marido nos braços, batendo-o com um pau na cabeça, castigando-o porque dormira com outra na noite anterior.

Você saiu com outra.

Perfurou meu coração.

Senti tanto medo de te perder.

Tanta falta do teu cheiro.

Falta das tuas palavras.

Eu quero arrancar os teus cabelos. Eu sou aquela índia.

Estou bem com as pessoas que me relaciono. Estou em boa companhia. Não tenho do que me queixar.

Fodam-se. Eu faço o que eu quero.

Desde o início eu fui assim.

Eu vou te castigar.

Sinto muito ciúmes de você ainda.

Maringá me soa muito distante do que eu havia imaginado.

Japoneses e negros. Misturados. Os negros ainda em baixo escalão.

São subalternos. Estão sempre com um sorriso no rosto. Não destratam os clientes, pelo contrário, os tratam muito bem.

O garçom é negro.

Eu me sinto branca.

Depois de uns quatro chops, subimos a rua larga e escura em busca da noite.

Eu guiava o grupo, andamos umas cinco quadras até sermos recebidas por negros pedintes, alcoólicos sem esperança.

(Nos aconselharam do perigo, mas eu preferi correr o risco, beber o último gole da noite.)

Encontrar com o desconhecido.

Não havia festa alguma.

Voltamos para o hotel de táxi. Frustradas.

Minha branquitude denunciava minha prematuridade.

Descontentamento.

Deitada agora, escrevo inspirada pela ópera da louca de cadeira de rodas, que gira, canta e grita sobre uma única perna calçada com um único sapato de salto alto preto, um salto de dez centímetros talvez, o qual freia a cadeira e conduz a mulher dançando freneticamente sobre a calçada, rodopiando, há também uma ciranda de guarda-chuvas os quais protegem a louca do vento, sendo para ela o seu hotel.

Vou ficando sonolenta. O balé ruidoso me aconchega na cama branca e alinhada do quarto de hóspedes.

Do belo hotel.

Bem-vinda seja na linda cidade de Maringá.

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Sobre indelevelsabina

Uma amante anônima.
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