Mas pera aí, que essa conversa não é plena, confunde a alma e envenena…

A espera no estacionamento é eterna, a ideia de mais um compromisso não cumprido reina sobre minha cabeça inteira, o carro treme no compasso de minha pulsação, ansiedade, o estômago reclama e avisa: esse aí já começou causando dor.

Fodam-se os sentidos, o celular dá o compasso do som silencioso, seguro com firmeza as chaves levando-as lentamente até a ignição, antes mesmo de inseri-las no buraco que faz o carro iniciar a rotação, meu celular desperta de sua solidão e toca anuncia a tua vinda por meio da campainha que é canção, me avisando que a noite não é pra decepção. Afinal, é apenas noite estrelada de terça-feira.

A vista é novidade para quem perambula as madrugadas do terceiro planalto frio, o asfalto prateado e as paredes de algum bar qualquer adormeceram escondidas por detrás das lindas muralhas de pedras, palco escolhido pelo convidado da noite, uma noite que acabara de alterar as órbitas dos planetas, estrelas e o fluxo lunar.

O papo é bom, debaixo a vista é de uma praça qualquer, você, com astúcia me presenteia com sagacidade: a praça não é ecumênica! Assovio para os meus ouvidos acostumados em pestanejar, encontros como esse são sempre alvos de lamentação, mas a águia é esperta, me mira de frente, asas bem grandes, abertas ao me fitar. Imploram-me por aventura e por um pouco de sentido para a sua existência nessa vida cheia de ar, sua essência é vazia se resume em voar voar e voar.

Logo eu, vinda do submundo daqueles desafortunados da estética. Esses valores já haviam sido confrontados durante alguns períodos de minha curta vida, que meu sábio pai a cabeça bem soube preparar, pra quem já sonhou em ser modelo na televisão, afugentar os pesadelos da feiura seria tão fácil como deixar de te amar, com um simples toque na tecla do deletar.

Não tocava algo tão especial que pudesse ter se tornado inesquecível. Duas garrafas já se foram, eu me perco em poesia, solto o verso, divago minha alegria… Minha língua não é capaz nem do pensamento travar, você, homem completo, sentado ali sob o meu luar, ouvindo meus devaneios e sorrindo feito um farol em nevoeiro. Suavemente sinto o joelho tímido se encostar junto ao meu, meus tendões entram em um colapso nervoso, euforia nos sentidos, confusão na central de sentimentos, aos poucos meu cérebro lança a mensagem para todo o corpo que a noite repousa em paz, com um de seus braços, sou fisgada para perto de seu peito paternal, olho profundamente nos olhos mais maravilhosamente tristes que eu já olhei em toda minha vida, vejo um menino, que como eu, anda vagando solitariamente pelos desencantos da vida. O silencio dos teus lábios tocando os meus cantam a canção mais linda daquela noite trivial. O beijo tem simetria e a costura é feita sob medida! Longos meses que não sentira lábios tão saborosos quanto aos teus. Um filme passa pela minha cabeça, fico tonta, me perco no paraíso, beijo o beijo da águia que pousou no meu jardim, que cultivo sem esperar as estações, sou refém de passarinhos e borboletas, que como você águia valente tem o coração ausente e medo não sabe sentir. O amor da águia é quente, mas aviso águia sagaz, a chuva aqui é ardente, teu escudo é vidro impotente, é a um teclado e uma rede. O que eu quero contigo é mais fundo, porque em ti eu vejo um homem valente.

Me desloco impetuosamente aos braços grandes da águia de olhos tristes, me envolvo em seu peito aberto, sinto a fortaleza paterna que outros já diziam ter me faltado na infância. Sou menina frágil, boneca sem caixa, órfã da vida, me acostumei com o sufrágio, mas não sou mais criança e no amor já perdi a esperança. Viciei no teu sabor, nos teus braços, no teu peito e na tua dor. Esse peito que tudo aguenta, desilusão, muita merda, muita tormenta. Meu sonho é bom, sonho que vai longe, consigo sair do tempo, viajar no pensamento e lembrar das mãos pequenas segurando no pescoço de meu pai. Mas pera aí, essa conversa não é plena, escolho você sim, mas não porque me causa pena, águia valente, peixe grande, farol irradiante, guia meu peito e me envenena, me leva que vale a pena, protege os passos dessa mulher que ainda em ti se vê pequena!

 

 

 

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Sobre indelevelsabina

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